terça-feira, 13 de junho de 2017

Reflexão Literária #04 - Considerações sobre a Intensidade

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Reflexão Literária #04 - Considerações sobre a Intensidade








Olá, gente!

Primeiramente desculpem o atraso, não consegui cumprir meu planejamento de tarefas e precisei dar prioridade a uma apresentação no final do mês de maio, o que acarretou nesta falha minha. Espero que me perdoem. Gostaria também de explicar de antemão a minha possível e provável ausência no mês de julho. Estamos prestes a receber nossa filha e precisaremos de um tempo de adaptação, em virtude disso não sei se conseguirei dedicar-me a escrever o próximo texto.

Espero também que não tenham perdido o apetite sobre as considerações que fiz com carinho.    


Neste texto adentraremos nos aspectos internos da noção de “presecialidade”, a qual identificamos, no último texto, como sendo a característica que possibilita a criação de vínculos potencialmente artísticos entre autor e receptor em textos pessoais. Dividimo-la, por hora, em 6 partículas rudimentares que apesar de independentes são inter-relacionadas, às quais denominamos: Intensidade. Profundidade, Transparência, Riqueza, Construção Imagética, Complexidade. Esse conjunto de fatores, uma vez postos em equilíbrio, dá origem à potência poética que define textos artísticos. Na presente reflexão, veremos como isso funciona na prática e nos debruçaremos, com maior afinco, sobre a Intensidade.

Antes, porém, de adentrarmos no tema propriamente dito, considero importante discutirmos mais amplamente as relações entre as partículas rudimentares para que fiquem mais claras e palpáveis as futuras colocações e explicações sobre esses aspectos da criação literária.

Para qualificar os mecanismos que regem a noção de “presencialidade” e, por conseguinte, a potência poética, venho usando termos que podem parecer contraditórios, se não forem analisados de um ponto de vista amplo. Ao definir as forças internas dos textos artísticos como independentes e inter relacionadas, a ideia é de que a relação entre elas está superposta à individualidade independente de cada uma no ambiente contextual da realização da prática textual, que se dá apenas através da interação destes aspectos literários mínimos.

Simplificando, com a independência das partículas rudimentares, quero formular o pensamento de que é possível discerni-las e, munido das ferramentas certas e das instruções necessárias, trabalha-las e reelaborá-las isoladamente, para que o texto - resultante da combinação das ações dos mecanismos e da harmonia por elas gerada - se unifique, se engrandeça e atinja o equilíbrio que gera a potência poética.   

Por outro lado, a inter relação que existe e deve existir entre esses aspectos fundamentais em um texto artístico é tamanha que, apesar de não impossibilitar a independência dos fatores, pode, através de uma criação ou modificações em um deles, acarretar em interferências ou harmonizações em partes ou na totalidade dos outros.  

Por isso, em diversas ocasiões será necessário que, dentro do estudo de uma das partículas rudimentares, toquemos em outras ou analisemos o todo da obra.

Explicado isto, podemos iniciar nosso mergulho nos meandros da intensidade.
Para abrirmos uma discussão sobre esse tema, necessitamos entender o que é intensidade dentro de um contexto literário e para nortear esse primeiro ponto, tomarei emprestado o raciocínio que a amiga Zilda Matric me deu em resposta a uma postagem que fiz questionando sobre o que é intensidade. Ela sugeriu uma divisão semântica inusitada que me auxiliou a chegar na melhor definição que consegui encontrar para o fenômeno da intensidade literária.

Geralmente pensamos na origem do termo “intensidade” como sendo a substantivização do adjetivo “intenso”, ou seja, a matéria da qual são feitas as coisas intensas. Dessa forma, conforme consta nos dicionários, a palavra “intensidade” se deriva do radical (parte da palavra que remete a um significado primordial ao qual um vocábulo se refere) “intenso” + o sufixo (parte acrescida após o radical para transformá-lo em outra palavra relativa ao significado da palavra original) “idade”, que indica que um adjetivo foi transformado em substantivo.
       
Entretanto, fazendo uso de um pensamento especulativo que me foi aberto pela já citada amiga, nossa língua possui o termo substantivo “tensão” de onde provavelmente se derivou a flexão para o adjetivo “tenso” e temos, também, termos onde o prefixo (parte acrescida antes do radical para transformá-lo em outra palavra relativa ao significado da palavra original) “in/im”, que normalmente indica o antônimo ou a negação das palavras as quais se agregam, comumente  adjetivos, como, por exemplo, inapropriado, inativo, indisponível, inexplicável, impecável, entre outras tantas; possui o significado de “voltar para dentro” a ação de verbos. Nestes casos, muitos dos verbos se acoplaram há tanto tempo ao prefixo que não existem mais em sua forma natural em nossa língua, como, por exemplo, “incluir”, cuja junção do prefixo ao verbo ocorreu ainda no Latim (língua falada no antigo império romano da qual se originaram muitas línguas, entre elas, Português, Espanhol, Italiano e Francês), derivado de “in” (em) + “claudere” (fechar). Clauder, clader ou claer, que seriam possíveis evoluções da palavra já não existem em nosso idioma. O mais próximo em etimologia e em semântica é “enclausurar”. Outros verbos que possuem um histórico linguístico similar: inserir, imprimir, invocar, imergir, entre outros.
     
Para que toda essa explicação? Primeiramente, analisemos como nossa língua transforma esses verbos em substantivos. Observem o padrão do processo: incluir-inclusão, inserir-inserção, imprimir-impressão, invocar-invocação, imergir-imersão. Não são todos os verbos que partilham deste padrão, vejam: ocorrer-ocorrência, divergir-divergência, proceder-procedência, e há ainda outras derivações possíveis.
Alguns destes substantivos ainda apresentam um processo de adjetivação muito característico, percebam: inclusão-incluso, impressão-impresso, imersão-imerso...

Pois bem, reconsiderando agora a etimologia da palavra “intensidade”, vemos que pode ser dividida in+tensão+idade. substantivo que obedece ao padrão descrito acima, intenção, que remete a estar na tensão de (pronto para ou disposto a) realizar uma ação.   

Há bases que sustentam essa teoria, fiz uma pesquisa na internet e encontrei um site de etimologia muito bom chamado “Origem da Palavra”(clique no nome para visitar), onde descobri que “intenção” e “intensão” (sim, segundo o site a palavra existe também grafada com S e significa conferir energia) derivam-se do latim “intensio” (alongamento, estiramento, esforço), de in (em)+ “tendere” (esticar, estender).

Portanto, pode-se considerar que a intensidade de um texto é o conjunto de tensões internas e cargas emocionais que este exerce sobre o seu receptor. Em textos pessoais de qualquer gênero, é a atmosfera que as palavras são capazes de criar através da “presencialidade”, quanto envolvimento a presença constituída é capaz de causar em seu leitor/ouvinte para que este queira adentrar e permanecer na atmosfera criada e, por fim, a que efeito de conexão se consegue chegar. Porém, mais do que apenas a força bruta das imagens evocadas, a intensidade de composições artísticas depende da maneira como se realiza este processo. Em outras palavras, não basta possuir a força necessária, é preciso saber como e onde aplica-la para que a presença criada possa atingir seu destinatário com o maior impacto possível e, com isso, abra caminhos que lhe permitam desfrutar não somente da colisão ou da empatia que lhe foi infringida, mas, também, aprecie a penetração nas dimensões abertas pelo texto.   

Devido a sua natureza mais ou menos envolvente, em qualquer gênero pessoal a intensidade é a partícula rudimentar que exerce a função de vivificar ou não o texto, facilitando ou dificultando a aproximação e a possível imersão nos meandros textuais; determinando, assim, não só a existência ou não de um vínculo emocional criado entre o leitor e a presença constituída, mas, também, sua espécie - que se torna perceptível a partir da identificação da carga emocional e das tensões que geram, junto de outros aspectos, uma postura (agradável, agressiva, confidente, libidinosa, esquiva, sagaz, irônica, entre outras) em relação a quem está recebendo o texto e também ao assunto sobre o qual este trata. Nem sempre se usa o mesmo posicionamento para ambos os focos, isto é, para o receptor e sobre o assunto de que se fala, podendo, em muitos casos, até entrar em oposição. Desta maneira, podemos traçar aqui um paralelo entre a intensidade e a transparência para ser estudado mais minuciosamente num texto posterior, porém, já podemos elaborar uma questão.

Será que quanto maior a intensidade de uma presencialidade constituída, igualmente maior é sua transparência?

Como vimos acima, a intensidade, enquanto a carga de um conjunto de tensões expressas em um texto, opera na indução à criação de vínculos através das sensações transmitidas pela presença constituída, portanto, trabalha no campo do contato palpável entre a presença e o receptor da mensagem por ela transmitida. Neste sentido, é fácil imaginar que quanto maior a intensidade, mais a presença é sentida e, quanto mais sentida, mais próxima e mais perceptível. Até ai o pensamento está correto, mas para as presenças textuais, assim como para as pessoas, estar próximo não significa necessariamente se deixar translúcido ou mesmo visível, em certos casos da prosa artística. Por isso, intensidade e transparência são partículas distintas.

Em uma outra analogia, se pudéssemos, de fato, corporificar uma presença literária de um texto, sua intensidade seria o ritmo de sua respiração, os batimentos de seu coração. a força de cada gesto e sua penetração, sua postura, sua proximidade, sua capacidade de causar compaixão, sua ousadia e sedução, seu tom de voz, seu olhar, seu cheiro, seu toque.  Notem que a percepção de todos estes aspectos independe da constituição de uma identidade. Se, por exemplo, formos assaltados por uma pessoa mascarada, ainda assim teremos acesso a grande maioria destes fatores, mesmo que não saibamos nada sobre a identidade do assaltante.

Deste modo, é correto afirmar que há variadas maneiras de trabalhar a intensidade num texto artístico, vou me ater a quatro destas por uma questão de domínio, mas, ao escrever, não tenham medo de sair das linhas que traço e serem criativos. Lembrem-se: Estou partilhando minhas experiências e descobertas para auxiliar no desbloqueio dos caminhos da criatividade, nunca para limitá-los; então encarem o que discutimos aqui como sugestões ou alicerces.

Se transferirmos a presença constituída da analogia que usei acima de volta para o contexto literário, veremos que textos artísticos podem ter variados ritmos de respiração controlados tanto pela tonicidade das palavras quanto pela pontuação, que juntas também conferem aos textos suas entonações. Esses fatores podem ou não ajudar a compor a intensidade de um texto, visto que são imagens um tanto quanto subliminares em um texto, pois, como no cotidiano, não estamos, em geral, habituados a prestar atenção nas nuances da respiração a não ser que seja algo realmente incomum;  essa desatenção acontece também, em menor grau, em relação a tonicidade das palavras que não são intencionalmente enfatizadas. por isso, ao lermos um texto, podemos perder, com mais facilidade, certos detalhes que ficam implícitos além da fronteira da semântica das palavras escritas e, devido a esta situação, deixamos, muitas vezes, o tom do texto escapar junto de informações ocultas.

Pensando nisso, minha sugestão é que usem os recursos de pontuação, ritmo e tonicidade para reforçar a intensidade expressa pelas palavras. Causar oscilação entre entonações é uma boa tática para alimentar a intensidade, sobretudo em um texto poético, mas pode ser aplicado em prosa também.

Pretendo fazer um artigo posterior falando exclusivamente sobre a pontuação e a respiração do texto, mas, em linhas gerais, a pontuação correta pode tornar o texto mais fluido e bem definido, indicando que a presença textual está respirando calmamente dando a impressão preliminar de que suas emoções estão serenas e pacíficas. Por outro lado, una pontuação colocada de maneira que desafia a norma da língua (propositalmente ou não) pode tornar o texto tenso por conotar que a respiração está irregular e, portanto, induz a ideia de emoções fortes e conturbadas.

Apesar deste comportamento ser bastante comum em textos de ordem pessoal íntima, tais como cartas e poesias, não deve ser tratado como regra absoluta, pois, dependendo do contexto semântico em que a pontuação correta é inserida, por exemplo, pode demonstrar frieza emocional. Por isso é necessário analisar o contexto geral do texto, mas principalmente notar se a pontuação usada foi intencional e se cabe analisá-la como parte importante do texto ou se esse recurso foi usado de maneira cotidiana, como estamos acostumados a conceber no dia a dia; isto é, sem qualquer cuidado conscientemente artístico, porque, em geral, não nos é habitual pensar que a pontuação possa servir, além das regras impostas pela norma culta da língua (aquela... que aprendemos nas escolas), como um oscilador de frequência respiratória e, ainda mais profundamente, porque somos normalmente condicionados a entender a arte literária como o desdobramento do sentido da palavra e não do uso da língua, como realmente o é.

Os dois fatores juntos contribuem para que a ferramenta da pontuação não seja muito percebida, impossibilitando, muitas vezes, que o recurso atue inclusive como reforço de intensificação, tamanha a nossa desatenção para os detalhes, mesmo que explícitos, que transcendem as palavras, interferindo também na compreensão da tonalidade mais adequada a cada palavra.

Falando nisso, vale lembrar ainda que ausência intencional de pontuação nos textos poéticos tem se constituído como um estilo que visa ampliar as possibilidades de interpretação textual, uma vez que permite ao leitor que escolha a entonação das palavras.

Por todas essas razões, tendo a acreditar que esses recursos devem, sim, acompanhar a criação do vínculo, mas não sejam inteiramente responsáveis pela intensidade de um texto.            

No entanto, há maneiras precisas de realizar a criação de vínculo nos valendo justamente do que prende atenção, ou seja, o valor semântico das palavras. Como já vimos acima, a intensidade de um texto pode ser resumida como o impacto das sensações causadas através das imagens sensoriais evocadas pelos gestos efetuados pela presença constituída, então, quanto mais sensações físicas o texto for capaz de causar, mais intenso ele será. Para alcançar esse objetivo é preciso explorar palavras que remetam aos cinco sentidos, às sensações que se deseja obter e aos gestos e ações que causam ou são provenientes das ações de outros.

Exemplos: "O teu toque é tão delicado que espanta o que há de rude em meu jeito de amar."
                  "Quando me deito, as lágrimas trazem as memórias de um abraço quente e sincero."
                "Minha dor continua crescendo e meus gritos rasgam o silêncio hospitalar que me sonda em segredo!"
                "Nossos beijos avassaladores são erupções de um prazer escondido sob um segredo frio."
                                                                                          
Acabo de criar essas quatro frases que poderiam ser encaixadas em qualquer texto de gênero pessoal, fosse poesia, romance, carta ou etc. Creio que todos concordam que são frases relativamente simples, talvez a exceção da última que é um pouco mais metafórica, e que, embora o grau da intensidade possa variar de pessoa para pessoa, todas as frases detém uma capacidade de envolver o leitor nas diferentes atmosferas sugeridas por elas. Em maior ou menor escala, podemos sentir, sem grandes dificuldades uma intimidade confortável provavelmente conjugal na primeira frase; uma saudade um tanto quanto depressiva, podendo ser de natureza afetiva, amistosa ou familiar, na segunda frase; na terceira, a angústia, o sofrimento e o desespero de conviver diariamente com uma dor que pode ou não ser física e, na quarta frase, a liberação intima e violenta da excitação erótica por um parceiro socialmente inadequado, seja lá por qual razão o for.

Esse entendimento das situações decorre do envolvimento causado pelas palavras que indicam a sensação da maneira como se toca, postura corporal, potência vocal, temperatura, o gesto e o ambiente. Sim, a descrição, ainda que mínima, do ambiente em que a presença se encontra ajuda o cérebro do leitor a se situar no espaço onde a cena descrita se passa, facilitando a empatia. Introduzir elementos que façam parte do cotidiano social também é uma boa ideia para criar vínculos.


Claro, pra quem se interessa pela literatura artística, sobretudo por poesia, talvez as dicas principais sejam: Fuja das relações óbvias entre sentido e sensação, pois, ao causar choque de sentidos, acrescentamos a potência do estranhamento à mistura, ganhando intensidade sem perder profundidade. Por exemplo, "escutar gritos" é intenso, mais intenso ainda é "sentir gritos" ou, talvez, melhor ainda, usando a ideia de Manoel de Barros, "escutar cores". A segunda dica é moderar a intensidade com a profundidade para atingir a riqueza e a transparência necessárias ao tema, à abordagem, e à mensagem desejadas. 

Em todo o processo de criação da intensidade, as onomatopeias (figura de linguagem que permite a representação em letras de um som que contenha em si um significado sem constituir uma palavra, como por exemplo estalar a língua "Tsc,tsc" , ou sons emitidos por animais, "miau" ), as prosopopeias (figura de linguagem que  permite dar emoções ou ações humanas a objetos inanimadas ou animais) e o estribilho (repetição constante de uma palavra frase ao longo de um texto) são grandes aliadas, pois, podem ajudar na tanto construção do ambiente, tanto auxiliar na descrição da atitude da presença constituída; atuando como ótimos recurso sonoros em poesias.             

No mais, criatividade, irreverência e ousadia!!!

Embora, uma vez que se entenda o mecanismo que a rege, a intensidade tenda a ser fácil de ser trabalhada, é preciso salientar que, mesmo se valendo de todos mecanismos mostrados acima, ó possível que a intensidade gerada por uma presença constituída pode ser facilmente desfeita por entrar em desacordo com outras partículas rudimentares.que estejam em desalinho com a sua proposta. A principal ressalva nesse sentido, em meu entender, é em relação a alterações despropositadas de complexidade, sobretudo no que tange a oscilações bruscas no vocabulário efetuadas por descuido ou, mais comumente, por noções desnecessárias de erudição léxica ou variação linguística.

Exemplifico: "Te quero como anseio pela noite mais escura depois de um dia difícil, pra te fazer brilhar enquanto eu descanso. Te amo como se ama amanhecer, com medos e vontades de te conhecer porque tudo que há em você ainda pode me surpreender. Manifesto meu estado de graça de forma abrupta e inexorável para que se sinta amada de verdade. E me atrapalho entre palavras, pois a função que lhes ensejo inferir é demasiadamente forte e única para caber em pequenos e breves recortes do mundo!            

Percebam que a oscilação de vocabulário arrasta consigo uma amplitude muito irregular de imagens evocadas, essa irregularidade provoca uma disparidade nas sensações criadas, muitas vezes, causando forças opostas, por mais que as palavras em si transmitam uma ideia contínua. Isso ocorre porque, de certa forma, a mudança repentina de linguagem quebra a atmosfera que nossa mente cria para situar os gestos que esta vendo acontecer, é como se trocássemos repentinamente não só o ambiente, mas, como consequência desta brusca ruptura, reavaliássemos a intenção e o significado dos gestos, porque a variação linguística afeta a transparência da presença constituída do texto.

Para entendermos melhor, imaginemos que ao ler um texto estamos assistindo a um filme. Digamos que o ator do filme está na cozinha de uma casa de campo, falando numa linguagem simplória com uma pessoa que gosta dele, sem cortar a cena esse ator e colocado repentinamente em um palanque político em uma praça lotada, mas continua com o mesmo assunto, como se estivesse no ambiente anterior falando com a mesma pessoa, sem alterar o tom de voz, adequando somente a linguagem. Não seria estranho?! Mas se bem utilizado, isso pode se tornar um recurso da criatividade. Tudo depende do uso preciso de cada coisa. Uma mudança gradual na linguagem pode indicar mudança de padrão social, por exemplo.             

O exercício de hoje se resume em aplicar as percepções derivadas desta leitura em um texto livre e refazer a mesma enquete feita no exercício da reflexão anterior para efeito de comparação.

Abaixo alguns textos ou trechos de vários autores, brevemente comentados por mim no tocante ao tema trabalhado na presente reflexão para melhor visualização prática dessa teoria, Aproveitem. 

Antes, porém, gostaria de relembrar que em virtude do nascimento de minha filha, previsto para este mês, pode ser que o texto sobre profundidade venha a ser publicado apenas em Agosto, mas tentarei fazer para Julho.

Abraços e apreciem o material abaixo!        


TEM GENTE COM FOME

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu
                                                   Solano Trindade
Observação: Neste poema, podemos perceber que a intensidade vem do estribilho "tem gente com fome". a repetição desse verso vai alimentando a sensação de fome e, junto da ausência de potuação, acentua a sensação de pressa e ganha a conotação do barulho do trem passando rapidamente pelos trilhos, essa associação é causada pelo terceiro verso "parece dizer" que remete tanto a urgência das pessoas que lotam o transporte quanto a ideia de que o trem parece murmurar a quem está dentro dele. A presença ainda se vale das onomatopeias do apito e do freio para garantir a alusão alegórica a um trem, sendo que o som do freio se equivale a ordem de silêncio, o que confere a profundidade ao texto, pois abre possibilidades de leituras e interpretações.
(...)O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

 Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.
(...)

                 Trecho do conto "Amor" do livro "Laços de família" de Clarice Lispector 

Observação: Reparemos como a pontuação acompanha a crise existencial de Ana, mesmo não sendo narrado pela própria personagem. Percebamos que ao separar frases que normalmente seriam vistas como uma só, o narrador entra na respiração da personagem que está reavaliando a vida num momento de ruptura com a aparente segurança que tinha das junção lógica das coisas. Notemos também que a repetição do "cego mascando goma" é feita pra enfatizar aquilo que causou a crise, operando também sobre as repetições do pensamento da personagem.       
 

"São Paulo
5:03 da manhã sinto a ferrugem, telefone continua calado.
Chego em casa tomo meu wisky e alimento mais a minha solidão
O gosto amargo insiste em permanecer no meu corpo
Corpo...corpo...está nú...
Gelado com o peito ardendo, gritando por socorro, preste a cair do 14º andar...
A sacada é curta, o grito é inevitável...
Eu vou acordar o vizinho, eu vou riscar os corpos, eu vou te telefonar...
E dizer que eu só preciso dormir..."


     Trecho da musica "Frerte Fatal"  da banda Ira! Composição: Edgard Scandurra  

Observação: Esse texto, em minha opinião, resume todo uso da intensidade por gestos da presença constituída, pois se vale de sensações físicas para colocar o receptor no clima que o autor idealizou. Começa com uma breve descrição do ambiente e vai se intensificando a medida em que o corpo vai se materializando através das sensações gradualmente evocadas. A pontuação acompanha essa mente agitada e sonolenta, fazendo a respiração ficar lenta em algumas ocasiões e acelerada em outras, trazendo a impressão de emoções instáveis e ansiedade.

Convido quem se sentir a vontade, é claro, a partilhar suas descobertas e textos conosco no grupo de debates do facebook Oficina “Sentido Literário”. Podem também comentar lá as reflexões que postarei aqui.

Reitero ainda a minha disposição para conversar via facebook Edgar Izarelli de Oliveira ou pelo e-mail: edelua.artes@gmail.com

Gratidão pela atenção! Desejo a todos grandes inspirações e uma ótima semana!

Edgar Izarelli 

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