terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Reflexão Literária #02 - Desvendando a Potência Poética



Olá, gente!

Primeiramente, peço perdão pelo atraso do texto.  Aviso que tentarei manter uma regularidade pelo menos mensal, pois percebi que não darei conta de escrever semanalmente. 
Hoje daremos continuidade às reflexões literárias iniciadas na útima postagem.

Começaremos a partir de agora a discutir sobre aquilo denominei, em nosso primeiro encontro, de potencia poética.

Penso que a melhor maneira de começarmos alguma discussão é sempre deixar o mais claro possível o objeto ao qual vamos nos debruçar.

Nosso objeto não é nada palpável, por isso, para ficar clara, a noção depende de muita delimitação. Vamos começar pelo mais simples possível e, depois, vamos nos aprofundando.

Em primeira instância, o objeto de estudo de qualquer artista da palavra é esse conjunto sons e regras a que chamamos língua. É a língua que fornece o conjunto de contornos - os nomes - às ideias, aos sentimentos e às coisas e, portanto, a possibilidade de expressar e entender o que está sendo expresso por outrem. Cada língua existente no planeta é fruto da observação do mundo através de uma determinada cultura, isso dá a cada idioma um conjunto único de sentidos que possibilita ao artista da palavra que trabalhe de infinitas formas dentro do que a língua que fala o permite fazer.

Essa noção básica é realmente importante para os artistas da palavra por conta da impressão de estranheza que se pode obter de coisas simples. Conhecer o sentido das palavras e saber como eles operam em seu senso habitual nos dá a possibilidade de utilizar a língua de forma que não seja a esperada. A essa possibilidade chama-se, em nossa língua, de Função Poética.

Como função poética se define o uso da língua de forma pouco convencional, lúdica e/ou imagética que não seja de natureza informativa (notícias, reportagens, textos didáticos, etc.) ou apelativa (anúncios, ordens, convites). Apesar disto, a função poética não se restringe apenas a textos artísticos, podendo estar presente em qualquer tipo de texto em maior ou menor carga, assim como as outras funções também podem ser encontradas em ambientes artísticos. 

Fica mais fácil assimilar se considerarmos a língua como uma máquina com várias chaves que podem ser ligadas em diferentes combinações e intensidades afim de produzir um único texto. 

Comparar a língua a uma máquina é um uso da função poética usada para exemplificar uma situação dentro de um texto didático, logo é correto pensar que a função pode ser usada para ilustração didática. 

No entanto, e isso é preciso que fique claro, a potência poética que cá estou introduzindo NÃO é a função poética da língua portuguesa, MAS, o conjunto de fatores que podem ampliar ou diminuir os sentidos da língua em textos predominantemente artísticos, ou, valendo-me da analogia maquinário acima, os mecanismos internos que possibilitam a existência, o acionamento e a regulagem da chave da função poética.

Estes mecanismos tendem a ser muito simples de se criar quando se conhece sentidos básicos da língua. Não é necessário, como já disse, dominar um imenso vocabulário para ser um ótimo artista da palavra, basta dominar os mecanismos que regem a arte. Obviamente, quanto mais palavras você tiver disposição maior vai ser a sua gama de mecanismos a serem usados, no entanto, esses mecanismos oriundos da vastidão de palavras são como aplicativos extras para celulares, deixando o aparelho mais equipado e, portanto, abrangendo uma variedade maior de situações, mas se um celular não tiver como entrar em contato com outra pessoa, mandar mensagens, tirar fotos, fazer vídeos e se localizar, será que vale a pena o investimento para adquiri-lo? 

Com um texto é a mesma coisa, SE NÃO HOUVER UM DETERMINADO GRUPO DE  FATORES BÁSICOS, NÃO HAVERÁ INTERESSE NA LEITURA, SOBRETUDO EM SE TRATANDO DE UM TEXTO ARTÍSTICO.       
    
Um exemplo do que estou dizendo: “A borboleta flutuava no turbilhão da noite”. Na frase/verso, as imagens que provocam o impacto são baseadas em contraposição de sentidos; a essa contraposição se chama paradoxo e é uma das figuras de linguagem mais encontradas na literatura de língua portuguesa, pois é relativamente fácil de se construir e, desde que bem usada, ajuda grandemente no processo de alcançar a tal potência poética. Mais adiante em minhas reflexões literárias, abordarei mais profundamente os usos e as operações dos paradoxos, bem como outras figuras de linguagem. Por ora, vamos nos concentrar na simplicidade da razão pela qual a frase em questão ficou tão profunda que nos faz parar para imaginar possíveis continuidades ou tentar desvelar sentidos escondidos.

O segredo está justamente no lugar mais óbvio que poderia estar, isto é, no senso habitual que a língua oferece para cada palavra, individualmente, quando colocado em um contexto que desafia o leitor a fazer uma leitura investigativa. Explico palavra por palavra, para que fique o mais didático possível.

Em nosso idioma, o português, a palavra “borboleta” remete a um inseto com grandes asas coloridas em formato singular, de voo característico e hábitos diurnos, sendo metaforicamente associada a uma transformação positiva e bonita; espécies noturnas similares são popularmente conhecidas como “mariposas” e, além do período de atividade, se diferem das primeiras pelo formato das asas e pelo habito de voar ao redor de luzes, sua conotação comum para nós, falantes do português, é alguém, geralmente do gênero feminino que passa pelo "submundo" da noite ou do misticismo, são ainda relacionadas a maus agouros.

Muitas línguas não têm essa oposição e associam as distintas imagens à mesma palavra, mas já que a nossa possui essa diferença, permite jogos de associação. Isso significa que eu podia ter escrito “A mariposa flutuava no turbilhão da noite”, mas, na minha visão, essa opção não atingiria, assim, isoladamente, uma potência poética tão instigante. Entretanto, dentro de um contexto propício essa frase pode ganhar dimensões maiores e mais profundas. Ao escolher “borboleta” e não “mariposa”, optei propositalmente pelo improvável. Uma borboleta voando à noite é mais potente, enquanto imagem poética isolada, do que uma borboleta voando de dia.

Poderia tranquilamente ser a opção contraria também e a frase não perderia o impacto. Percebam: “A mariposa flutuava no turbilhão da tarde”. A imagem continua fugindo do senso habitual, embora o sentido mude razoavelmente, por conta das outras palavras que constituem a frase.

A palavra “flutuava” remete, no senso habitual, ao ato permanecer sobre a água ou suspenso no ar, sem afundar ou cair, geralmente associado a um estado de inércia, trazendo uma imagem de algo aparentemente leve. Levando em consideração a imagem da borboleta/mariposa, flutuar ganha uma conotação de voar com calma ou se entregar. O contexto geral da frase isolada acaba por sugerir mais a ideia de calma por causa da palavra "noite"/"tarde", que, em senso comum, remetem a descanso e ao fim de um período temporal, se diferenciando pela presença de luz solar e pelas atividades sociais realizadas nesses horários. A palavra "turbilhão" se refere ao movimento rápido de circulação de um líquido ou de gás, um redemoinho, enfim, algo um tanto quanto intranquilo, descontrolado, impróprio, portanto, para uma criatura tão leve e frágil fazer uma coisa aparentemente calma como flutuar, vocês concordam?

Pois bem, essa sucessão de imagens relativamente comuns cria uma atmosfera lúdica na mente do leitor, que pode ter diversas interpretações baseadas em suas experiências de vida, em seus conhecimentos, em suas emoções e sua espiritualidade. Tendo a interpretá-la como metáfora de uma grande ideia extraída de um pesadelo ou alguém ingênuo perdido e chamando atenção em um ambiente inóspito ou misterioso, outras pessoas teriam outras leituras. Tamanha pluralidade de variáveis que surtem influência na interpretação é o que deve estimular o artista da palavra a buscar a própria maneira de se expressar, pois quanto mais íntima for a compreensão das palavras e as razões para a escolha dos termos usados, mais naturalmente flui a correnteza de sentidos que leva a mensagem desejada aos outros. Isso acontece porque dentro de uma organização que nos seja relativamente natural, sentimo-nos livres para usar amplamente a Potência Poética.

Por exemplo, eu usei a frase “A borboleta flutuava no turbilhão da noite” para explicar parte da teoria sobre potência poética porque sinto-me confortável em causar esse choque de expectativa através oposição de sentido. No entanto, esse não é a única forma possível de fazer a palavra ganhar valor.  Observem alguns versos de Viviane Mosé cunha na poesia intitulada "Prosa Patética":

"Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.

Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.

Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região."

Para quem quiser ler a poesia na integra clique AQUI. Garanto que usarei muito este texto e outros da autora, pois admiro muito o trabalho dela. 

Porém, o que nos interessa agora é apenas demonstrar que nem todo texto artisticamente potente precisa necessariamente se basear em oposição de sentido. Nestes três versos, a potência poética é decorrente da sobreposição de imagens com sentidos similares, não exatamente palavras substituíveis entre si, mas semanticamente muito próximas de modo a criar  uma ambientação ilustrativa. Reparem na sequência: Solidão, Sina (destino), Espaço, Extensão, Largura, Páramo (planalto isolado nas montanhas andinas), Planície, Região.

Percebem? Todas as palavras remetem a um lugar espaçoso e aberto, onde se tem a sensação de liberdade e tranquilidade que é justamente a sensação agradável e incômoda da solidão. 

Para quem quiser se exercitar um pouco, a minha sugestão é criar dois textos curtos utilizando, em um a lógica da oposição de sentidos, no outro, a sobreposição de sentidos. Não misturem os dois em um texto só, porque o objetivo, por ora, é experimentar o que flui mais naturalmente.  

Deixo exemplos de como grandes poetas da nossa história utilizaram a oposição e a sobreposição de sentidos, aproveitem a leitura! 

Texto de apoio ao exercício de oposição.


"AS FACAS PERNAMBUCANAS

O Brasil, qualquer Brasil,
quando fala do Nordeste,
fala da peixeira, chave
de sua sede e de sua febre.

Mas não só praia é o Nordeste,
ou o Litoral da peixeira:
também é o Sertão, o Agreste
sem rios, sem peixes, pesca.

No Agreste e Sertão, a faca
não é a peixeira: lá,
se ignora até a carne peixe,
doce e sensual de cortar.

Não dá peixes que a peixeira,
docemente corta em postas:
cavalas, perna-de-moça,
carapebas, serras, ciobas.

Lá no Agreste e no Sertão
é outra a faca que se usa:
é menos que de cortar,
é uma faca que perfura.

O couro, a carne-de-sol,
não falam língua de cais:
de cegar qualquer peixeira
a sola em couro é capaz.

Esse punhal do Pajeú,
faca-de-ponta só ponta,
nada possui da peixeira:
ela é esguia e lacônica.

Se a peixeira corta e conta,
o punhal do Pajeú, reto,
quase mais bala que faca,
fala em objeto direto."

 - João Cabral de Melo Neto


            
 Texto de apoio ao exercício de sobreposição.

"EU, ETIQUETA
 
Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comparo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam
e cada gesto, cada olhar
cada vinco da roupa
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente."
- Carlos Drummond de Andrade

Convido quem se sentir a vontade, é claro, a partilhar suas descobertas e textos conosco no grupo de debates do facebook Oficina “Sentido Literário”. Podem também comentar lá as reflexões que postarei aqui.

Reitero ainda a minha disposição para conversar via facebook Edgar Izarelli de Oliveira ou pelo e-mail: edelua.artes@gmail.com

Gratidão pela atenção! Desejo a todos grandes inspirações e uma ótima semana!

Edgar

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Reflexão Literária # 01 – Todo mundo PODE ser um artista da palavra



Olá



Hoje começarei a partilhar com vocês algumas reflexões sobre o fazer literário dentro de uma proposta de escrita criativa em poesia e prosa. Sempre tive vontade de passar minhas experiências adiante e, como já tive a honra de orientar um projeto de oficina literária para jovens (Oficina “SentidoLiterário”, 2012 ), sinto muita falta de todo o processo, desde a preparação da aula até o resultado, que era ver a evolução dos meus alunos. Então tive a ideia de começar este trabalho virtualmente. Claro que será um novo desafio para mim, e também sei que já há muitas propostas similares, mas cada poeta e cada escritor tem uma experiência e uma teoria única extraída de seus estudos e práticas, assim sendo, há espaço para todas as propostas.



A minha proposta é a seguinte: Postarei semanalmente, aqui no blog, uma reflexão sobre fazer literatura.  Poderei utilizar vídeo, textos de outros poetas (sempre com nome dos autores), estarei disponível para conversas no meu facebook e no e-mail da companhia e o grupo de debates da Oficina “SentidoLiterário” no facebook será reativado. Para além disso, penso em firmar parceria com a Associação EMBUsca DAS ARTES parta utilizar o projeto Literatório do núcleo de literatura da entidade como um meio de haver reuniões presenciais.



Bom, dada a proposta, aproveito para deixar a primeira reflexão sobre literatura. Como não sei nem tenho como saber quem vai ler essas reflexões, tentarei ser o mais abrangente possível. Por isso, partirei do pressuposto inicial de que estou falando para pessoas que estão iniciando um trabalho literário e que querem melhorar suas capacidades.


Reflexão Literária # 01 – Todo mundo PODE ser um artista da palavra



“Todo mundo PODE ser um artista da palavra”. Esse pensamento tem se tornado cada dia mais palpável aos meus sentidos, já não sei precisar cronologicamente quando ele substituiu a ideia de arte, qualquer arte, enquanto dom, mas creio que foi em algum momento durante uma aula de linguística na faculdade, onde conheci o conceito de capacidade inata. Isso nada mais é do que uma habilidade que todos possuem, mas que precisa ser estimulada da maneira correta para funcionar adequadamente; diferenciando-se, portanto, de um dom que é uma capacidade individual e especifica que já é, por natureza, bem trabalhada.



Hoje, enxergo a arte (em geral) como uma habilidade humana, isso significa que a grande maioria, senão a totalidade dos humanos é apta a se expressar por meio de arte, se assim desejarem. Colocando de outra maneira, não há humanos que não possam pensar, se manifestar ou mesmo produzir artisticamente porque todos podem desenvolver as técnicas básicas das artes e a partir delas se desenvolver. Vale ressaltar que quando digo podemos me refiro ao potencial de fazer, ter a possibilidade de fazer. Com técnicas básicas não me refiro a estudos das técnicas de artistas consagrados, isso é um passo (ou vários) além do básico. 

Explico-me: para pintar um quadro o mais básico que precisamos saber é passar tinta em uma tela, portanto, quem sabe passar tinta numa tela pode ser pintor, bem como quem sabe usar a voz pode ser cantor, ou quem sabe mexer o corpo pode ser bailarino ou ator e assim por diante passando por todas as artes. Com isso não estou dizendo que ao passar tinta numa tela a pessoa se torna automaticamente pintor, pois, em meu entender de hoje, a arte, muito longe de ser a pura expressão do momento, é um estudo da profundidade do ser e da sua expressão; um trabalho de criação de imagens e conceitos que transmitam mensagens aos seus interlocutores, independentemente do estilo, da maneira em que for expressa. 

Em outras palavras, do mesmo modo que saber as quatro operações básicas da matemática, nos dias de hoje, não torna ninguém um matemático, saber e, principalmente, se contentar em saber apenas o básico da arte não faz nenhum artista. Por outro lado, assim como o matemático teve um dia de aprender as operações básicas para depois chegar a ser matemático, o artista também tem suas fases iniciais de descoberta e aprendizagem. Assim é possível concluir que há um possível matemático em todo aquele que aprende a contar, um possível pintor em quem aprende a pintar e, agora trazendo para a literatura, um possível poeta em quem aprende a falar (ou gesticular no caso de língua de sinais) e/ou escrever uma língua.



Sim, considero que não seja preciso saber escrever para ser um artista da palavra, até porque a palavra em essência é falada, a escrita é apenas a representação gráfica da fala, um registro visual das palavras. Isso nos leva a pensar que culturas que não desenvolveram a escrita tem, sim, sua literatura, que é oral, mas é ignorada por não ser estudada, uma vez que carece de registro. Desse ponto de vista, o trabalho com a palavra feito por repentistas, rappers, índios e outras culturas sem escrita são em essência e conteúdo tão poesias quanto poesias publicadas em livros; a única diferença entre elas é o meio em que são veiculadas. O conhecimento da escrita amplia possibilidades de jogos de linguagem e de reconhecimento pelo trabalho.



Outro conceito que geralmente associamos a imagem do artista da palavra é o de que ele possui um extenso vocabulário, um domínio magistral das regras cultas da língua e que é uma figura estudada nos ditames culturais de um determinado padrão que é considerado erudito, essa imagem, apesar de estar sendo desconstruída por movimentos contemporâneos, ainda compõe o imaginário coletivo e, assim, contribui de forma significativa para a elitização da arte da palavra, o que acaba por distanciar a literatura do interesse popular.



Um artista da palavra, em minha concepção, é aquele que, por meio de uma apurada reflexão sobre aquilo que deseja expressar, emprega os recursos léxicos e semânticos que tem à sua imediata disposição de forma a dar às sensações corriqueiras e à linguagem cotidiana a potência de transmitir mensagens de determinada maneira que ela atinja seus leitores/ouvintes, causando-lhes empatia ou choque através de desdobramentos do sentido literal da palavra expressa. Esses desdobramentos podem ser construidos a partir de infinitos mecanismos de linguagem que, apesar de incontáveis, partilham a intenção comum de dilatar a palavra, tornando-a maior em importância e, assim, manifestando uma potência semântica ampliada. A essa “potência” chamo de “Potencia Poética”. 

Apesar do termo se referir explicitamente à poesia, a potencia poética está em textos artísticos feitos em prosa também, agindo de outra forma. 

Digamos, previamente, que o que chamo de potência poética é um conjunto de fatores que, se bem equilibrados, são capazes de transformar em arte qualquer palavra. A maneira individual e natural como cada um explora esse conjunto de fatores é o que diferencia os variados e infinitos estilos de pensar e fazer literatura. 

Não há nenhuma pessoa capaz de reproduzir um estilo de escrita de outra pessoa, é possível imitar a técnica linguística utilizada por outrem, porém o estilo tem variantes subjetivas que torna-o único porque dependem de aspectos psicológicos, sociais, religiosos, visão política, valores culturais e etc.



Isso significa que nossa visão de mundo é que forma o estilo da arte da palavra que vamos conceber e, portanto, por qual caminho alcançaremos o equilíbrio entre os fatores que constituem a potência poética natural para nós.  

Por isso, costumo dizer que não posso orientar ninguém a se tornar o Carlos Drummond de Andrade ou Mário Quintana, são personalidades únicas, dotadas de grandezas tão singulares quanto as minhas ou as suas, mas posso orientar cada um no sentido de se expressar melhor dentro daquilo que já se tem de potência poética que é uma capacidade inata.



Sendo assim considerada, a descoberta da potência poética pode ser comparada com o processo de aprendizado de uma nova língua qualquer que não nos é habitual. E, como em todo e qualquer processo de aprendizado, tem fases. Respeitar a fase em que se está é crucial para o processo de aprendizado tanto quanto estudar e praticar. Algumas pessoas encontrarão mais facilidades que outras no processo, como é natural, porém a prática é indispensável para todos.  

Quanto mais escrevemos mais percepções temos de como as palavras podem se tornar mais expressivas e como elas se combinam para formar a potência de que vos falo. 

Discursarei mais profundamente sobre a potência poética no próximo texto.



No mais, é importante reforçar desde já que a arte da palavra tem mais a ver com como você é capaz de expressar as coisas que vive através da língua que fala, do que propriamente o que você vai falar/escrever.



Para finalizar esse primeiro encontro, gostaria de sugerir um exercício simples. Se lembre do acontecimento que mais marcou o seu dia e escreva sobre ele, descreva o acontecimento o mais breve quanto possível. 

Exemplo: “Li aquela notícia”. 

Depois, tente encontrar similaridades entre o movimento de objetos que estavam presentes no acontecimento e as sensações que o acontecimento despertou e as descreva. 

Exemplo: “Li aquela notícia e as portas rangeram minha raiva”. 

Por fim, arremate o texto buscando transmitir o que a sensação despertada trouxe em reflexo para você. 

Exemplo: “Li aquela notícia e as portas rangeram minha raiva. O estrondo que se seguiu me estranhou em silêncio!”. 

Pronto! Você escreveu um texto lúdico que passa uma mensagem bem trabalhada e clara e que vai causar a reflexão em quem quer que esteja lendo! É fácil e gostoso escrever! Agora, se quiser, você pode brincar com esse texto, dando-lhe mais adjetivos ou advérbios para complementar possíveis lacunas.



Convido quem se sentir a vontade, é claro, a partilhar suas descobertas e textos conosco no grupo de debates do facebook Oficina “Sentido Literário”. Podem também comentar lá as reflexões que postarei aqui.



Reitero ainda a minha disposição para conversar via facebook Edgar Izarelli de Oliveira ou pelo e-mail: edelua.artes@gmail.com



Gratidão pela atenção! Desejo a todos grandes inspirações e uma ótima semana!


Edgar

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Resultado do Sorteio da Promoção Primavera Premiada

Olá gente!


O sorteio da Promoção Primavera Premiada ocorreu na noite do dia 17/12/16! 
(O vídeo está disponível no youtube)



Recapitulando os nomes dos vencedores:

R$ 500,00- Bruna Martins Cruz
1ª cesta cultural- Sandra Regina Guerra
2ª cesta cultural- Miguel Andrade
Jantar a dois- Sandra Cardoso
Massagem terapêutica- Bruna Martins Cruz
Almofada artesanal- Aline Akomi Nagata
Cordéis- Edineia Andrade
Livro infantil- Luciana Viana



Nossos parabéns aos vencedores e nossa gratidão ao ano que se encerra, à todos um bom descanso!
Edgar & Lua


domingo, 4 de dezembro de 2016

Sobro o Sorteio da Promoçao

Estamos para encerrar mais um ano de muitas lutas, muitas alegrias, tristezas, luto e nascimento. Nada melhor do que estar entre amigos, celebrando a vida com arte.
 

Queremos dar uma ênfase especial em como nossa alma sente o mundo que vivemos e partilhamos, dar uma atenção especial à nossa espiritualidade.
 

Claro que estaremos abertos à toda manifestação artística que vier, afinal, arte por si ja é uma manifestação espiritual.
Contamos com a colaboração de todos com comes e bebes (para quem puder e quiser).


Aproveitaremos o momento para realizar o sorteio da promoção PRIMAVERA PREMIADA da EdLua.Artes! Para saber mais clique no link>> http://edluaartes.blogspot.com.br/2016/08/promocao-primavera-premiada-regulamento.html .

Estão todos mais que convidadissíssimos para nossa confraternização/ sarau ♥

O sarau D'alma foi pensado pela EdLua.Artes em parceria com Lobo Vagante, vocal da banda Pensamentos Libertinos.



 O evento acontecerá dia 17 de dezembro, terá  início às 16:00 horas, no Parque do Lago Francisco Rizzo (

terça-feira, 29 de novembro de 2016

NOta sobre a promoção

Pedimos humildemente que nos perdoem pela demora para anunciar data e local do sorteio, estamos na busca por um bom espaço ou evento cultural, assim que tivermos este espaço, anunciaremos aqui e em nosso blog. Conforme dissemos, o sorteio ocorrerá antes das festas de fim de ano.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Eventos e notícias da promoção

Galera, salve, salve! teremos dois eventos nessa semana.

Mas, antes um aviso prévio sobre a Promoção Primavera Premiada. 

Devido ao grande sucesso e para dar chance de participação a mais pessoas, a promoção será prorrogada por alguns dias! O sorteio ainda não tem data pra acontecer, mas ocorrerá, com toda a certeza, antes do natal! Fiquem atentos! Publicaremos aqui e na página EdLua.Artes, no Facebook, a data e local do sorteio ainda nesse final de semana! 

Confira o regulamento da promoção AQUI  

Agora, vamos aos eventos:


Amanhã, 24/11 a partir das 17:00 horas ocorrerá, no Centro Cultural Mestre Assis (Largo 21 de Abril, nº 29 - Embu das Artes - Centro) a vernissage da exposição MostrARTE, da qual, nossa querida artista plástica Lua Rodrigues estará participando com uma instalação interessantíssima sobre a arte! Também há poesias minhas expostas. 



Sexta-feira, dia 25/11, às 18:30, temos Encontros Decoloniais sobre garantia de direitos na escola, no CEU Cantos do Amanhecer (Av. Cantos do Amanhecer, s/n - Jardim Eledy, São Paulo - SP).


   
 E é isso gente! Esperamos vocês!

Abraços

Edgar Izarelli

sábado, 19 de novembro de 2016

Sobre as apresentações nos CEU's Jambeiro e Água Azul

Roda de conversa pós espetáculo, CEU Jambeiro - Guaianases. Foto: Maria Elisa Frizzarinni

"INCLUSÃO OU INTEGRAÇÃO: integração privilegia o portador de necessidades especiais dividindo com ele as responsabilidades da inserção, enquanto a inclusão tenta avançar exigindo exigindo da sociedade condições para a inserção. Parabéns Edgar Izarelli de Oliveira pelo belo exemplo de determinação, força e integração. Agradeço em nome da Unesp e UniCeu Água Azul pela parceria e por dividir conosco seu conhecimento.
Espero que mais pessoas possam ter o privilégio que tivemos em assistir seu espetáculo é aprender contigo o verdadeiro significado de integração."


- Daniela Guidoni 

"Achei muito legal o espetáculo, pois mostra para as pessoas "ditas normais", que uma deficiência não é fator limitante para a vida. Mostra que precisamos integrar e incluir as pessoas com deficiência, tanto na escola, quanto na sociedade, afinal, tanta luta por inclusão, e nos esquecemos que a integração também é importantíssima e tem que andar de mãos dadas com a inclusão, e vou além, eu incluo a acessibilidade também, formando uma tríade importantíssima para que a pessoa com deficiência se sinta realmente parte da sociedade."

- Jean Carlo Martinelli 


Lua em cena, CEU Água Azul - Cidade TIradentes.
  

Olá! Primeiramente, gostaria de dizer o quanto somos gratos à Maria Elisa Frizzarinni e Daniela Guidoni pela verdadeira batalha que tiveram para nos dar oportunidade de realizar esses dois trabalhos! Esperamos ter correspondido as expectativas e contribuído, de alguma maneira, com comunidade e com a discussão sobre integração de pessoas que convivem com diversidades funcionais das mais variadas espécies e em seus mais variados graus. Queremos também agradecer imensamente às interpretes de LIBRAS, Tatiana Milanez, Érica e Rosana e a toda a equipe que nos acolheu e se esforçaram em nos atender em tudo que solicitamos!        

Em cena, CEU Água Azul - Cidade TIradentes. Foto: Daniela Gidoni
Um pensamento que é recorrente na minha forma de entender e conceber a arte e que se intensificou muito depois destes espetáculos, é: o impacto causado no público define o resultado de qualquer obra artística. Nem sempre o público compreende a real intenção do artista em sua dimensão mais profunda, mas o impacto da impressão permanece e, às vezes, age como semente de reflexões que podem um dia alcançar substratos até mais amplos do que aqueles que o artista vislumbrou no momento da concepção da obra. Esse processo não tem um tempo predeterminado, pois que pode depender da vontade de quem recebeu a mensagem, ou de vivências que a pessoa ainda não experimentou.  Neste sentido, o trabalho do artista é semear ideias em terras desconhecidas e isso pode ser tão surpreendentemente excitante quanto irritantemente inquietante ao mesmo tempo.  


Em cena, CEU Água Azul. Foto: Daniela Guidoni    
Os depoimentos acima - colhidos no facebook após a apresentação do espetáculo "O Brilho de uma Alma", no CEU Água Azul, na quinta-feira, dia 10/11 e republicados aqui com as devidas autorizações de seus autores - demonstram que o impacto do trabalho foi satisfatório! Enquanto artista, creio que tanto eu quanto a Lua (posso afirmar por mim) consideramos essa apresentação do dia 10 mais tranquila e mais ousada do que a do CEU Jambeiro no dia 8/11, que foi mais tensa e mais técnica, embora estivéssemos dando nosso melhor em ambas. 

Público, CEU Jambeiro - Guainases. Foto: Maria Elisa Frizzarinni  
O interessante, porém, é que, apesar da parte artística ter tido maior expressão e vivência, para nós, no CEU Água Azul, enquanto seres pensantes, nos sentimos mais à vontade com o dinamismo, a espontaneidade e, sobretudo, com a curiosidade que os espectadores do CEU Jambeiro, que tornaram a roda de conversa um momento mais fluido, descontraído e orgânico.  Estimulados por suas perguntas, acabamos falando sobre a construção textual e cênica do espetáculo, simbologia dos objetos cênicos, filosofias e, em meio a tudo isso, abordamos aspectos importantes de como é conviver com uma limitação física e como a sociedade pode, de fato, auxiliar pessoas com as mais variadas diversidades funcionais. Foi uma partilha muito leve e gostosa! 


Particularmente, me impressionou bastante a maneira como me trataram, não houve elogios exagerados ou congratulações desnecessárias. Estavam todos interessados em debater questões pertinentes. Fiquei fascinado com a forma natural como viram minhas limitações. Senti que, lá no CEU Jambeiro, a arte que partilhamos superou a rala noção de que eu sou um "exemplo de vida". As pessoas que estavam ali, em sua maioria, queriam realmente conversar com os artistas, não quiseram estimular um cadeirante a continuar no seu caminho de superação. 


Público, CEU Água Azul - Cidade Tiradentes. oto: Daniela Guidoni  
Já na roda de conversa do CEU Água Azul, fizemos deliberadamente uma introdução mais especifica sobre a dicotomia que percebemos entre inclusão e integração e, talvez por isso,  o debate tenha seguido por rumos mais pautados sobre minha convivência com determinados obstáculos que a deficiência me proporcionou. Percebi que o público realmente foi afetado de modo positivo pelo espetáculo, entretanto, nessa ocasião, ficou muito evidente a tentativa de engrandecer, de uma maneira um tanto quanto excessiva, minhas lutas e, principalmente, minhas vitórias. Não senti piedade, pelo contrário, senti uma enorme comoção que acabou por culminar em muitos elogios a mim e ao meu trabalho; como se a ideia e execução do espetáculo fossem de crédito integralmente meu ou como se eu, por conta das questões motoras, fosse digno de glórias extras. 

O contraste de reação do público, observado e analisado posteriormente, me fez enveredar por linhas de raciocínio que ainda não haviam sido devidamente exploradas. A conclusão, por hora, é essa que apresento abaixo:
Roda de conversa pós espetáculo, CEU Jambeiro - Guaianases. Foto: Maria Elisa Frizzarinni

Esse trabalho e essa linha de pensamento que expressei e partilhei durante a roda de conversa é, em partes, fruto da minha experiência e convivência com a minha limitação física e com pessoas que possuem outras limitações, mas, majoritariamente, tanto enquanto processo artístico quanto em teorias e filosofias, seus caminhos passaram por milhares reflexões e construções coletivas, com todos aqueles que já trabalharam no espetáculo, com todas as trocas com o público durante rodas de conversa similares e, principalmente, com minha parceira de cena e de vida Lua Rodrigues. Sem a presença dela em todos os momentos desse processo, o resultado, certamente, não estaria tão bem estruturado e definido nem enquanto proposta teatral nem enquanto proposta reflexiva. São dois anos de trabalho com este espetáculo. Por isso digo e reafirmo que não me considero um exemplo. Posso, no máximo, ser inspiração e fonte de incentivo para as pessoas que, como eu, convivem com algum tipo de limitação; mas às pessoas consideradas "normais", eu não posso ser referência alguma, por que, só quem convive diariamente com as limitações de outras pessoas, pode dizer e mostrar que isso é humanamente possível aos seus "iguais". Visto por esse ângulo minha mãe Denise Oliveira, minha esposa, Lua Rodrigues e, futuramente, nossos filhos, é que possuem as mais ricas experiências a serem partilhadas, pois estas pessoas é que sabem as dificuldades que enfrentam para estarem perto de mim!


Novamente, agradecemos a todos que trabalharam para que esses momentos tão gostosos pudessem acontecer!